| name | narrative-foundation |
| description | Constrói a fundação narrativa do livro — personagens com profundidade psicológica, curva emocional capítulo a capítulo, e tema tecido como pergunta (nunca resposta). Três especialistas integrados num só. Usar na Fase 2 do book-genesis, antes de escrever qualquer capítulo. |
NARRATIVE FOUNDATION — Personagem + Emoção + Tema
Você constrói as três fundações que sustentam qualquer livro que preste: personagens que parecem reais, emoções que o leitor sente no corpo, e um tema que fica na cabeça por anos. Estas três coisas se informam mutuamente — não são construídas em isolamento.
FILOSOFIA
A fundação determina o teto do livro. Prosa brilhante com personagens rasos = livro esquecível. Personagens profundos com tema vazio = entretenimento descartável. Emoção sem tema = melodrama. As três camadas juntas = livro que importa.
PARTE 1 — PERSONAGENS
7 Camadas de Profundidade
Para cada personagem principal, construir de dentro pra fora:
1. Ferida Central
O trauma formativo. O evento (ou padrão) que moldou a visão de mundo do personagem. Não precisa ser explicitado no texto — mas você (escritor) precisa saber.
- Perguntar: "O que aconteceu com ele que ele nunca superou?"
2. Mentira
A crença falsa que a ferida criou. O personagem age baseado nessa mentira até o arco forçar confronto.
- Exemplo: Ferida = abandono → Mentira = "se eu for perfeito, ninguém me abandona"
3. Desejo Consciente
O que o personagem ACHA que quer. O objetivo declarado.
- Deve ser concreto e visível: "quer conseguir emprego", "quer curar a ansiedade", "quer salvar o irmão"
4. Necessidade Inconsciente
O que o personagem REALMENTE precisa. Quase sempre conflita com o desejo.
- Desejo = "quero ser curado" → Necessidade = "preciso aceitar que não há cura, só constância"
- O arco acontece quando a necessidade supera o desejo (ou não — tragédia)
5. Contradições
Onde o personagem é inconsistente — e isso é o que o torna humano.
- Generoso com estranhos, cruel com família
- Corajoso em público, covarde em privado
- Defende honestidade, mente pra si mesmo
- Mínimo: 2 contradições por personagem principal
6. Voz
Como este personagem FALA e PENSA. Vocabulário, ritmo, tiques, nível de formalidade.
- Teste: cobrir o nome do personagem. Pelo jeito de falar, o leitor sabe quem é?
- Se não sabe, as vozes estão genéricas. Diferenciar.
7. Arco de Transformação
De onde começa a onde chega. O que muda nele do capítulo 1 ao último.
- Arco positivo: supera a mentira, abraça a necessidade
- Arco negativo: a mentira vence, o personagem cai
- Arco plano: o personagem não muda — muda o mundo ao redor dele (raro, difícil)
Para Não-Ficção / Memoir
O autor É o personagem principal. As 7 camadas se aplicam ao autor-narrador:
- Ferida: o evento detonador (crise, diagnóstico, perda)
- Mentira: o que ele acreditava que era verdade
- Desejo: o que ele buscava
- Necessidade: o que ele realmente precisava
- Contradições: onde ele se sabotava
- Voz: como ele conta a história
- Arco: de onde saiu a onde chegou
Personagens secundários em memoir (família, médicos, amigos) precisam de pelo menos ferida + voz + função narrativa (o que eles representam na história do protagonista).
Relacionamentos como Espelhos
Cada relação principal revela uma faceta do protagonista:
- Relação com mãe → revela vulnerabilidade
- Relação com terapeuta → revela resistência
- Relação com ex → revela padrão de conexão
Mapear: o que cada relação MOSTRA sobre o protagonista que ele não mostraria sozinho.
PARTE 1B — CONSTRUÇÃO DE VOZ
Voz é o que separa "livro gerado por máquina" de "livro escrito por pessoa". Personagem profundo com voz genérica = boneco bem desenhado falando como ChatGPT. A voz precisa ser CONSTRUÍDA com método, não deixada ao acaso.
Se o autor é humano (memoir, não-ficção pessoal)
Passo 1 — Coletar amostra.
Pedir ao usuário 3-5 páginas de escrita natural: emails longos, posts de rede social, diário, mensagens de áudio transcritas, qualquer texto onde ele NÃO estava tentando "escrever bem". A escrita descontraída revela a voz real.
Passo 2 — Extrair padrões.
Analisar a amostra e preencher:
GUIA DE VOZ — [Nome do projeto]
Tamanho médio de frase: [curto/médio/longo]
Estrutura preferida: [frases simples / compostas / mistas]
Vocabulário: [coloquial / misto / formal] — palavras que ele USA: [lista]
Palavras que ele NUNCA usaria: [lista]
Tiques verbais: [expressões recorrentes — "tipo", "na real", "olha", etc.]
Nível de ironia: [zero / sutil / constante / ácido]
Como lida com emoção: [direto / evasivo / humor pra disfarçar / abstrato]
Ritmo: [staccato (frases curtas, secas) / legato (frases longas, fluidas) / misto]
Pontuação característica: [usa reticências? travessão? ponto final seco?]
Referências culturais: [de onde vêm as comparações dele? música? games? trabalho? infância?]
Passo 3 — Codificar em regra.
Transformar padrões em instruções concretas de escrita:
- "Frases de até 15 palavras na maioria. Quando passa de 25, é deliberado."
- "Nunca usa 'profundo', 'ressoar', 'transcender'. Usa 'foda', 'zoado', 'pesado'."
- "Humor aparece nos piores momentos — quando a situação é grave, ele faz piada. Quando é leve, fica sério."
- "Referências vêm de tecnologia e infância nos anos 90. Nunca de alta cultura."
Passo 4 — Checar contra cada capítulo.
Após escrever, abrir 3 parágrafos aleatórios e perguntar:
- O autor real falaria assim? Se não, onde diverge?
- As palavras proibidas apareceram? Substituir.
- Os tiques verbais aparecem na frequência certa? (demais = caricatura, de menos = genérico)
Se não tem amostra do autor (ficção, ghostwriting)
Passo 1 — Definir por referência.
Escolher 2-3 autores publicados cuja voz se aproxima do desejado.
- "Voz de Tati Bernardi (ácida, autodepreciativa) com dados de Johann Hari (jornalístico, pesquisado)"
- "Voz de Clarice Lispector (introspectiva, fragmentada) com ritmo de Rubem Fonseca (seco, violento)"
Passo 2 — Decompor as referências.
Para cada autor-referência, identificar:
- O que faz a voz dele reconhecível em 1 parágrafo?
- Qual elemento pegar e qual descartar?
Passo 3 — Sintetizar.
Criar o guia de voz combinando elementos das referências + adicionando algo original (porque cópia de voz = pastiche, não voz própria).
Verificação de Consistência (toda sessão)
A voz DRIFTA ao longo de sessões longas. O Claude começa escrevendo na voz definida e gradualmente retorna ao "modo padrão". Para combater:
- No início de cada sessão de escrita, reler o guia de voz
- Reler o último capítulo escrito (para recalibrar)
- Após cada capítulo novo, comparar o primeiro e o último parágrafo — a voz é a mesma?
- Se houver drift, identificar ONDE mudou e corrigir antes de avançar
PARTE 2 — PACING (RITMO DE LEITURA)
Pacing é a velocidade percebida pelo leitor. Não é o mesmo que ritmo de frase (isso é prosa). Pacing é quanto tempo o leitor sente que passa em cada capítulo — e se esse tempo é bem gasto.
Variação de Comprimento
Capítulos:
- Variar comprimento entre capítulos. Se todos têm 3.000 palavras, o livro é metrônomo — previsível.
- Após um capítulo longo e denso, um curto e seco = respiro.
- O capítulo mais curto do livro deve ser pelo menos 40% menor que a média. O mais longo, no máximo 50% maior.
Parágrafos:
- Parágrafos de 1 linha entre parágrafos de 10 linhas = impacto visual.
- 5 parágrafos seguidos do mesmo tamanho = monotonia.
- Parágrafo de 1 palavra: usar no máximo 2x no livro inteiro. Mais = cacoete.
Frases:
- Frase longa que se estende e detalha. Depois curta. Seco. O contraste é o que cria ritmo.
- Sequência de 5+ frases curtas = staccato intencional (tensão). Não deve durar mais que 1 parágrafo.
- Sequência de 3+ frases longas = legato (contemplação). Funciona em reflexão, não em ação.
Alternância Cena vs. Reflexão
O livro alterna entre AÇÃO (coisas acontecendo) e REFLEXÃO (o narrador processando).
Ficção:
- Cena → cena → reflexão → cena → reflexão curta → cena → cena intensa → reflexão longa
- Nunca 3 cenas de ação em sequência sem pausa (o leitor precisa processar)
- Nunca 2 reflexões em sequência (o leitor precisa de ação)
Não-ficção / Memoir:
- Narrativa → dado → reflexão pessoal → narrativa → dado → conclusão parcial
- Nunca 3 dados/estatísticas em sequência (vira relatório)
- Nunca 3 reflexões pessoais sem narrativa ou dado ancorado (vira diário)
Densidade por Gênero
| Gênero | Capítulo médio | Densidade | Observação |
|---|
| Thriller | 2.000-3.000 | Alta ação, pouca reflexão | Capítulos curtos, ganchos constantes |
| Memoir | 3.000-5.000 | 60% narrativa, 40% reflexão | Variação forte entre caps |
| Não-ficção dados | 4.000-6.000 | 40% dados, 30% narrativa, 30% reflexão | Dados integrados, não empilhados |
| Fantasia | 4.000-7.000 | 50% ação, 30% worldbuilding, 20% reflexão | Worldbuilding distribuído, não despejado |
| Lit fiction | 3.000-5.000 | 40% cena, 60% reflexão/voz | Prosa carrega mais que trama |
Diagnóstico de Pacing
Ao final de cada capítulo, perguntar:
- O leitor viraria a página? Se não → gancho de final fraco ou capítulo longo demais.
- O capítulo tem velocidade variável? Se a velocidade é constante do início ao fim → monotonia. Todo capítulo deve ter pelo menos 1 mudança de velocidade.
- Há respiro após intensidade? Se o capítulo anterior foi intenso e este também é intenso → fadiga emocional.
- O comprimento justifica o conteúdo? Se o capítulo tem 5.000 palavras mas poderia dizer o mesmo em 3.000 → cortar.
PARTE 3 — CURVA EMOCIONAL
As 7 Emoções Primárias
Toda cena evoca pelo menos uma:
| Emoção | Quando usar | Excesso causa |
|---|
| Tensão | Conflito, ameaça, incerteza | Fadiga |
| Esperança | Progresso, conexão, possibilidade | Ingenuidade |
| Quebra | Perda, revelação devastadora, fracasso | Depressão no leitor |
| Alívio | Resolução parcial, humor, descanso | Complacência |
| Catarse | Clímax emocional, verdade confrontada | Melodrama |
| Curiosidade | Mistério, informação retida, promessa | Frustração |
| Desconforto | Verdade incômoda, vergonha alheia | Rejeição |
Mapeamento Capítulo a Capítulo
Para cada capítulo, definir:
Cap X: [Emoção dominante] → [Emoção secundária]
Pico emocional: [momento específico]
Temperatura: [1-10, onde 10 = devastador]
Regras de variação:
- Nunca 3 capítulos consecutivos na mesma emoção dominante
- Após um pico (temperatura 8-10), o próximo capítulo deve respirar (temperatura 4-6)
- A catarse só funciona se houver investimento — o leitor precisa se importar ANTES de sofrer
- O capítulo mais devastador nunca é o último — o último precisa de resolução (mesmo parcial)
High-Impact Beats
Identificar os 3-5 momentos que o leitor vai LEMBRAR:
- Estes são os selling points do livro
- Cada um precisa de setup (investimento) antes do payoff (impacto)
- Setup mínimo: 2 capítulos antes do beat
Gestão de Investimento
O leitor só sofre com quem ele ama. Antes de qualquer beat devastador:
- O personagem foi mostrado vulnerável? (leitor sente empatia)
- O personagem foi mostrado tentando? (leitor respeita o esforço)
- O leitor entende o que está em jogo? (as stakes são claras)
Se algum dos 3 faltar → o beat não funciona → reposicionar ou adicionar setup.
PARTE 3 — TEMA
Princípio: Tema é PERGUNTA
- "O que sobra quando tudo falha?" → tema
- "A resiliência vence" → propaganda
- "Por que seguimos o roteiro?" → tema
- "Devemos questionar o sistema" → panfleto
O livro investiga a pergunta. Não responde. Se o leitor chegar ao final e souber a "resposta", o tema foi reduzido a moral de fábula.
4 Níveis de Tecelagem
Nível MACRO — A pergunta do livro inteiro
Definida uma vez. Nunca declarada no texto. Todo capítulo a toca.
Nível MÉDIO — Como cada parte reflete a pergunta
Cada parte/ato aborda a pergunta de um ângulo diferente:
- Parte I: ângulo pessoal (a pergunta na vida do protagonista)
- Parte II: ângulo estrutural (a pergunta na sociedade)
- Parte III: ângulo existencial (a pergunta sem resposta — e o que sobra)
Nível MICRO — Como cada capítulo toca na pergunta
Cada capítulo traz um aspecto da pergunta. Não repete — avança.
- Cap 1: "Por que eu quebrei?" → Cap 5: "Por que TODOS quebraram?" → Cap 9: "Quem lucra com isso?"
Nível NANO — Imagens, metáforas, detalhes que ecoam
O sistema de símbolos. Objetos, cores, ações recorrentes que funcionam como motifs:
- Formulários = sistema burocrático impessoal
- Cursor piscando = espera sem resposta
- Campo em branco = vazio que ninguém preenche
- Scroll infinito = busca sem destino
Os motifs não precisam ser explicados. O leitor os absorve inconscientemente.
Anti-Patterns (o que NÃO fazer)
- Tema declarado em diálogo: "Sabe o que eu aprendi? Que a constância é o que importa." → NUNCA. Mostrar, não declarar.
- Tema repetido sem variação: Se todo capítulo diz a mesma coisa sobre o tema, é sermão.
- Tema ausente: Se um capítulo inteiro não toca no tema de nenhuma forma (nem nano), ele não pertence ao livro.
- Tema como resposta: Se o livro termina com certeza, o tema morreu. A pergunta fica aberta — o leitor leva pra casa.
INTEGRAÇÃO DAS 3 PARTES
A fundação é um documento único onde:
- O personagem encarna o tema (a ferida dele É a pergunta do livro)
- A curva emocional revela o personagem (os momentos de maior impacto são onde a ferida é tocada)
- O tema é testado pela emoção (a catarse acontece quando a pergunta é confrontada, não respondida)
Teste de integração: Se você trocar o tema do livro, o personagem principal perde sentido? Se sim, a integração está forte. Se não, a ferida do personagem e o tema do livro estão desconectados — consertar.
COMO USAR
Input: Ideia do livro, gênero, tom, protagonista (mínimo)
Output: Documento de fundação com:
- Ficha de cada personagem principal (7 camadas) — Parte 1
- Guia de voz (do autor ou por referência) — Parte 1B
- Mapa de pacing por gênero — Parte 2
- Curva emocional capítulo a capítulo — Parte 3
- High-impact beats com setup necessário — Parte 3
- Tema como pergunta + 4 níveis de tecelagem — Parte 4
- Sistema de símbolos/motifs — Parte 4
- Mapa de relacionamentos como espelhos — Parte 1
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