| name | prose-craft |
| description | Excelência na linha. Abertura que prende, diálogo com subtexto, prosa que um editor sublinha por qualidade. Dois especialistas integrados — gancho (primeiras páginas) e diálogo (toda conversa no livro). Usar na Fase 3 do book-genesis, em revisões de prosa, e sempre que a escrita parecer genérica. |
PROSE CRAFT — Abertura + Diálogo + Qualidade de Linha
Você opera no nível da frase. Enquanto outros skills cuidam de estrutura, personagem e tema, você cuida de como cada linha SOA. Uma ideia brilhante executada com prosa medíocre é um livro que ninguém termina. Prosa é a interface entre o escritor e o leitor — se a interface é ruim, o conteúdo não importa.
PARTE 1 — ABERTURA (5 CAMADAS DE GANCHO)
A abertura decide tudo. Editor lê a primeira página e decide se continua. Leitor abre o ebook, lê o sample de 10% e decide se compra. As primeiras palavras carregam mais peso que qualquer outra parte do livro.
Camada 1: Primeira Linha
A primeira frase deve fazer UMA coisa: impedir o leitor de parar.
4 tipos que funcionam:
Tipo A — Conflito imediato:
"Eu fumei um baseado numa praia chamada Sossego e nunca mais tive sossego."
Situação + consequência em uma frase. O leitor quer saber o que aconteceu.
Tipo B — Voz irresistível:
"Minha mãe me ligou às seis da manhã pra dizer que eu parecia triste no Instagram."
O tom é tão específico que o leitor segue pela voz, não pela trama.
Tipo C — Informação retida:
"Três coisas que ninguém te conta sobre eletroconvulsoterapia."
Promessa de revelação. O leitor precisa saber quais são.
Tipo D — Imagem inesquecível:
"O consultório do psiquiatra tinha um quadro de girassóis na parede. Custava R$ 400 a hora. Os girassóis eram de graça."
Imagem tão vívida e inesperada que gruda.
Camada 2: Primeiro Parágrafo
Estabelece voz e tom. O leitor sabe, em 3-4 frases, que tipo de livro está lendo.
- Parágrafo longo e lírico = livro contemplativo
- Parágrafos curtos e secos = livro direto
- Mistura de registro = livro que surpreende
Camada 3: Primeira Página
Cria compromisso. Ao final da primeira página, o leitor deve ter:
- Uma pergunta que quer respondida
- Um personagem sobre quem quer saber mais
- Uma sensação do tom que vai encontrar
Camada 4: Primeira Cena
Entrega a promessa do gênero. Se é memoir de saúde mental, o leitor deve sentir a vulnerabilidade. Se é thriller, deve sentir perigo. Se é humor, deve ter rido.
Camada 5: Primeiro Capítulo
Torna impossível largar. Ao final do Cap 1, o leitor deve:
- Saber o que está em jogo
- Se importar com pelo menos um personagem
- Ter uma razão concreta para abrir o Cap 2
Testes Diagnósticos
Aplicar a toda abertura:
- Teste da remoção: Remover a primeira frase. O texto perde algo? Se não, a primeira frase é dispensável — reescrever.
- Teste "e daí?": Ler cada frase e perguntar "e daí?". Se a resposta for "nada", a frase não está trabalhando.
- Teste de voz alta: Ler em voz alta. Se tropeçar, o ritmo está errado.
- Teste de gênero: Alguém que leia só a primeira página sabe que tipo de livro é?
PARTE 2 — DIÁLOGO
Diálogo fraco é o erro mais visível em manuscritos. Exposição disfarçada de conversa, personagens que falam igual, respostas diretas demais — tudo isso grita "amador". Diálogo forte é invisível: o leitor sente a cena sem perceber a mecânica.
4 Funções do Diálogo
Todo diálogo no livro serve pelo menos 1 dessas funções. Se não serve nenhuma, cortar.
1. Revelar personagem
O que alguém diz (e COMO diz) mostra quem ele é:
- Vocabulário = classe social, educação, personalidade
- Ritmo = ansiedade (frases curtas), confiança (frases longas), evasão (frases quebradas)
- O que ele ESCOLHE não dizer = tanto quanto o que diz
2. Avançar conflito
Cada fala muda o estado da cena. Se no início da conversa o personagem está calmo e no final está furioso, o diálogo fez seu trabalho. Se está calmo no início e calmo no final, cortar a cena.
3. Transmitir informação
O mais perigoso. Informação necessária embutida em conversa natural. O teste: se parece que um personagem está explicando algo pro leitor (não pro outro personagem), é exposição. Reescrever.
Ruim: "Como você sabe, nós nos conhecemos há 10 anos quando trabalhávamos juntos na fábrica."
Bom: "Dez anos e você ainda não aprendeu a fechar a porta."
4. Criar tensão
O que NÃO é dito importa mais. Dois personagens falando sobre o tempo enquanto um deles sabe que o outro está mentindo = tensão. Dois personagens discutindo diretamente = drama, mas sem subtexto.
Subtexto
Personagens quase nunca dizem o que pensam. A distância entre o que dizem e o que sentem é o subtexto.
Sem subtexto (ruim):
"Estou com raiva porque você me abandonou."
Com subtexto (bom):
"Que horas você chega amanhã?"
(O leitor sabe que ela não quer saber a hora — quer saber se ele vai aparecer desta vez.)
Técnicas:
- Resposta oblíqua: personagem responde algo diferente do que foi perguntado
- Ação contraditória: diz "tô bem" enquanto quebra o copo
- Mudança de assunto: fugir da pergunta É a resposta
- Silêncio: não responder diz mais que qualquer frase
Voz Única por Personagem
Dois personagens nunca devem soar iguais. Diferenciar por:
| Elemento | Personagem A | Personagem B |
|---|
| Vocabulário | Formal, técnico | Coloquial, gíria |
| Tamanho de frase | Curto, telegráfico | Longo, explicativo |
| Tique verbal | "tipo..." | "na real..." |
| Nível de certeza | Afirmativo | Hesitante |
| Humor | Sarcástico | Literal |
Teste: Cobrir os nomes. Só pelas falas, dá pra saber quem é quem? Se não, diferenciar mais.
Action Beats (substituir "disse")
Trocar verbos de fala por ação física que revela estado emocional:
Antes: "Eu não sei", disse ele nervosamente.
Depois: "Eu não sei." Ele apertou a tampa da caneta até o plástico estalar.
O "nervosamente" conta. O plástico estalando MOSTRA.
Regra: usar "disse/falou/perguntou" na maioria das vezes (são invisíveis). Action beats para momentos que importam. Nunca usar verbos criativos demais ("vociferou", "exclamou", "murmurou pensativamente") — chamam atenção pra si e tiram da cena.
PARTE 3 — PROTOCOLO ANTI-IA (OBRIGATÓRIO)
O maior risco de um livro gerado com IA é SOAR como IA. Se um leitor, editor ou resenhista detecta "cheiro de máquina", o livro morre — não importa quão boa seja a estrutura. Este protocolo é aplicado DURANTE a escrita, não depois.
Padrões de IA — Detectar e Eliminar
1. Simetria forçada
- IA: "Não era tristeza — era a ausência de qualquer coisa que pudesse ser chamada de alegria."
- Humano: "Não era tristeza. Era pior. Era nada."
- Regra: Se a frase tem estrutura "não era X — era Y" ou "menos X, mais Y", reescrever em pelo menos 50% dos casos. Humanos não falam em antíteses o tempo todo.
2. Vocabulário poético vazio
- Palavras que IA ama e humanos não usam em conversa: "tapeçaria", "mosaico" (de experiências), "alquimia", "catalisador", "entrelaçar", "permear", "ressoar", "transcender", "navegar" (emoções), "jornada" (como metáfora), "delicado", "profundo" (como adjetivo de sentimento)
- Regra: Se a palavra soa como poesia de Instagram, trocar por uma que alguém falaria em voz alta no bar.
3. Regra de três automática
- IA: "Ele era inteligente, determinado e implacável."
- IA: "A cidade era barulhenta, cinzenta e indiferente."
- Humano varia: às vezes lista 2, às vezes 4, às vezes 1 e pronto.
- Regra: Se mais de 20% dos parágrafos têm listas de 3, quebrar o padrão deliberadamente.
4. Excesso de em dash (—)
- IA usa travessão como muleta para inserções dramáticas: "Ele sabia — e isso o destruía — que não havia volta."
- Regra: Máximo 2-3 travessões por página. Se tem mais, substituir por ponto, vírgula, ou reestruturar a frase.
5. Metáfora bonita que não significa nada
- IA: "O silêncio era um oceano onde suas palavras naufragavam."
- Teste: A metáfora adiciona compreensão ou é só decoração? Se tirar a metáfora e substituir por linguagem direta, perde-se informação? Se não perde, a metáfora é gordura.
- Regra: Toda metáfora precisa TRABALHAR — revelar algo que a linguagem direta não revelaria.
6. Abertura dramática com "E"
- IA: "E então ele entendeu." / "E foi naquele momento que tudo mudou." / "E o silêncio disse mais que qualquer palavra."
- Regra: Cortar "E" no início de frase dramática. Se a frase precisa de "E" pra funcionar, ela é fraca.
7. Parágrafos de encerramento "profundos"
- IA adora fechar seções com uma frase curta pseudo-filosófica: "Mas talvez fosse tarde demais." / "E isso fazia toda a diferença." / "Alguns silêncios dizem mais que palavras."
- Regra: Se o último parágrafo soa como legenda de foto motivacional, reescrever com especificidade. "Mas talvez fosse tarde demais" → "O formulário venceu há três meses. Ele nem abriu o envelope."
8. Paralelismo excessivo
- IA: "Onde antes havia esperança, agora havia resignação. Onde antes havia planos, agora havia dívidas. Onde antes havia futuro, agora havia um campo em branco."
- Uma vez: efeito retórico. Três vezes: padrão de IA. Cinco vezes: insuportável.
- Regra: Anáfora funciona UMA vez por capítulo, no momento certo. Mais que isso, vira cacoete.
9. Transições suaves demais
- IA conecta tudo perfeitamente: cada parágrafo flui pro próximo sem atrito.
- Humanos são abruptos às vezes. Mudam de assunto. Cortam seco. Deixam lacunas que o leitor preenche.
- Regra: Se todo parágrafo começa conectando ao anterior ("E foi assim que...", "Nesse sentido...", "Da mesma forma..."), quebrar 30% das transições. Cortar seco de vez em quando.
10. Emoção descrita, não mostrada
- IA: "Ele sentiu uma onda avassaladora de tristeza."
- Humano: "Ele ficou olhando o café esfriar."
- Regra: Se a frase nomeia a emoção (tristeza, raiva, alegria, angústia), perguntar: posso MOSTRAR isso com ação, detalhe físico ou imagem? Se sim, substituir.
Check Anti-IA por Capítulo
Após escrever cada capítulo, rodar:
- Buscar por vocabulário da lista proibida (item 2). Encontrou? Substituir.
- Contar travessões. Mais de 3 por página? Reduzir.
- Contar listas de 3. Mais de 20% dos parágrafos? Variar.
- Ler as últimas frases de cada seção. Soam como legenda motivacional? Reescrever com especificidade.
- Ler os inícios de parágrafo em sequência (sem o corpo). Todos conectam suavemente? Quebrar alguns.
- Perguntar: "Um leitor cético diria que isso foi escrito por máquina?" Se a resposta não for "não com certeza", revisar.
PARTE 4 — PROSA DE NÃO-FICÇÃO
Não-ficção tem desafios de prosa que ficção não tem: dados que precisam virar narrativa, discurso reportado que precisa soar vivo, e argumentação que precisa fluir sem virar artigo acadêmico.
Dados como Narrativa (não como relatório)
O dado bruto é frio. O dado contextualizado é impacto.
Ruim (relatório):
Segundo pesquisa do IBGE (2023), 47% dos jovens entre 18 e 29 anos não possuem carteira de trabalho assinada.
Bom (narrativa + dado):
Quase metade dos jovens brasileiros entre 18 e 29 nunca assinou uma carteira de trabalho. O IBGE conta 47%. O que o IBGE não conta é quantos deles foram chamados de preguiçosos no jantar de família.
Técnicas:
- Dado → consequência pessoal: O número sozinho é abstrato. O número + o que significa na vida do leitor = impacto.
- Dado como confirmação: O leitor já sente algo → o dado valida. "Você não é o único — somos 34 milhões."
- Dado como surpresa: O dado contradiz o que o leitor assume. "Achamos que somos geração mimimi. O IBGE mostra que trabalhamos mais horas que nossos pais."
- Dado como arma: Em contexto de crítica social, o dado é munição. Seco. Sem comentário. O número fala sozinho.
Regras:
- Máximo 2-3 dados por página. Mais = artigo, não livro.
- Alternar: dado → reflexão → narrativa → dado. Nunca 3 dados em sequência.
- Fonte no texto de forma natural ("O IBGE mostra que...") ou nota de fim. Nunca rodapé acadêmico.
Discurso Reportado
Em não-ficção, pessoas reais falam. Diálogo reportado precisa soar vivo sem inventar.
Ruim (burocrático):
O psiquiatra disse que eu deveria considerar medicação.
Bom (vivo):
O psiquiatra tirou os óculos, olhou pra mim como quem olha pra um carro com motor fundido, e disse: "Vamos precisar de medicação."
Técnicas:
- Action beat antes da fala: Ação física revela o estado da pessoa antes de ela abrir a boca.
- Fala parcial: Não precisa reproduzir a conversa inteira. "Ele disse algo sobre resistência. Eu não estava ouvindo."
- Fala indireta com voz: "Minha mãe tinha uma teoria sobre depressão. Envolvia banho gelado e Deus." — A personalidade da mãe aparece sem aspas.
Regra de honestidade: Se não lembra a fala exata, não ponha entre aspas. Use discurso indireto. Memoir não é jornalismo, mas também não é ficção.
Argumentação que Flui
Não-ficção argumenta. Mas se o leitor sentir que está lendo TCC, fecha o livro.
Ruim (dissertação):
Existem três fatores que contribuem para a precarização do trabalho jovem. O primeiro é a informalidade. O segundo é a uberização. O terceiro é a desvalorização de diplomas.
Bom (narrativa com tese):
Meu primeiro emprego foi informal. O segundo foi um app. O terceiro exigia mestrado e pagava menos que o app. Se isso não é precarização, alguém me explica o que é.
Técnicas:
- Tese incorporada na experiência: O argumento nasce do vivido, não do conceitual.
- Progressão pelo concreto: Em vez de "primeiro, segundo, terceiro", mostrar 3 cenas que constroem o argumento.
- O leitor deduz a tese: Se a tese precisa ser declarada, o texto não fez seu trabalho. O leitor deve chegar à conclusão sozinho — e sentir que é dele.
PARTE 5 — QUALIDADE DE LINHA
O que um editor sublinha (positivamente)
- Especificidade: "R$ 78 mil" é mais forte que "muito dinheiro". "Praia do Sossego em Niterói" é mais forte que "uma praia".
- Imagem concreta: "A tela preenche o vazio que o roteiro deixou" vs. "As redes sociais compensam a falta de propósito". A primeira é imagem. A segunda é ensaio.
- Ritmo variado: Frase longa que descreve, que se estende, que respira. Depois curta. Seco. O contraste cria ritmo.
- Verbo forte no lugar de advérbio: "Correu rapidamente" → "Disparou". "Disse baixinho" → "Sussurrou". O verbo carrega o peso.
- A frase que o leitor relê: Toda boa prosa tem frases que o leitor para e relê por escolha. Não por confusão — por admiração.
O que um editor sublinha (negativamente)
- Clichê: "Luz no fim do túnel", "faca de dois gumes", "a gota d'água". Se você já ouviu a frase, o leitor também. Reescrever com imagem original.
- Gordura: Palavras que não trabalham. "Basicamente", "literalmente" (quando não é literal), "realmente", "muito". Cortar.
- Abstração: "Sentiu uma profunda angústia existencial" → O que ele SENTIU no corpo? Peito apertado? Mãos tremendo? Vontade de vomitar? Mostrar.
- Frase passiva sem motivo: "O diagnóstico foi dado pelo médico" → "O médico deu o diagnóstico." Voz ativa. Sujeito claro.
- Excesso de adjetivos: "A manhã triste, cinzenta e melancólica" → "Manhã cinzenta." Um adjetivo forte > três fracos.
Teste de Qualidade por Capítulo
Após escrever, aplicar:
- Ler em voz alta — tropeçou? O ritmo está errado.
- Identificar 3 frases que um editor sublinharia positivamente. Se não encontrar → a prosa está funcional mas não distinta.
- Identificar 3 frases com gordura. Cortar.
- Verificar: há pelo menos 1 imagem concreta por página? Se não → abstrato demais.
- Os parágrafos variam de tamanho? Se todos têm 3-5 linhas → monotonia visual.
COMO USAR
Para abertura: Entregar o primeiro capítulo. Aplica os 4 testes diagnósticos (Parte 1).
Para diálogo: Entregar qualquer cena com conversa. Verifica função, subtexto, voz e action beats (Parte 2).
Para check anti-IA: Entregar qualquer capítulo. Roda os 10 padrões de detecção + 6 passos de verificação (Parte 3).
Para não-ficção: Entregar trecho com dados, discurso reportado ou argumentação. Verifica integração narrativa (Parte 4).
Para prosa geral: Entregar qualquer trecho. Identifica gordura, clichê, abstração e oportunidades de melhoria (Parte 5).
Output: Texto revisado com anotações sobre o que mudou e por quê.